domingo, 2 de novembro de 2008

Podemos prevenir a nova onda de prostituição de crianças no Nordeste

O Brasil acordou nos últimos anos para o turismo. Descobrimos o nosso potencial, tanto para brasileiros quanto para estrangeiros. De uma indústria relegada, o turismo pode alcançar, nos próximos vinte anos, uma das "pole positions" no Brasil. No mundo, o turismo já é a terceira maior indústria depois de armamentos e drogas.

Apostando no Brasil como um dos mais promissores destinos turísticos mundiais, vários grupos hoteleiros, especialmente estrangeiros, estão instalando ou planejando grandes resorts por toda a costa do Nordeste. Junto com o inegável crescimento econômico que advirá, temos a necessidade e o dever de olhar para prevenir os inevitáveis efeitos colaterais desse desenvolvimento. De modo a minimizá-los.

Um dos mais preocupantes é a prostituição infantil. Numa região pobre, sem perspectivas de vida para os excluídos, a vinda de um grande número de turistas estrangeiros infelizmente estimula a prostituição das crianças. O que fazer para minimizar esse grande problema social em nosso país? A melhor tática, a mais barata, é a prevenção.

Como? Já sabemos que a instalação de resorts, por concentrar um grande número de turistas, irá contribuir para aumentar essa problemática, especialmente entre os estrangeiros. Sabemos também que os resorts gerarão divisas para a região, pujança econômica. E que obviamente o capital vai querer ser remunerado, e de preferência por um bom espaço de tempo, o mais largo possível.

Entretanto, se a região começar a ter prostituição infantil, gravidez em meninas de 10, 12 anos, bebês abandonados e em situação de risco, explosão no número de drogados, assaltos em trilhas e fora delas, o resultado, sem considerar os impactos sociais, poderá ser a evasão dos turistas, o que se constituirá em pesadelo para os investidores hoteleiros. Já vimos situação semelhante na República Dominicana. O risco social fez com que os resorts se blindassem, criando uma barreira de arame entre turistas e a comunidade local. Os riscos de fuga do turista por conta disso são apreciáveis e apavoram os empresários locais. E então?

O que dizer do Brasil, onde as pesquisas apontam que o maior produto turístico é o brasileiro? Será que os turistas estrangeiros vão querer ficar enclausurados nas dependências do resort? Não quererão conhecer a rica vida brasileira que pulsa fora das cercas?

Qual a solução? Ela é clara. Responsabilidade do investidor, do hoteleiro. Ao fazer seus estudos, seu projeto, sua implantação, cabe a ele a tarefa de realizar um estudo de impactos sociais, que eu chamei de EIS, gerar um relatório desses impactos, que eu chamei de RIS, de maneira a antever o que acontecerá com as pessoas da região, do entorno, com os trabalhadores que vierem construir o resort, com suas famílias. O projeto deve incluir todos no processo de desenvolvimento que o resort irá iniciar. A comunidade será inserida no processo turístico? Como?

Não se trata apenas de prever algumas ações assistencialistas, alguns projetos pontuais de visibilidade. Trata-se de prever oportunidades para todo o contingente de pessoas que serão afetadas.

Valorizando-as. Incluindo no planejamento de produtos turísticos suas tradições e herança cultural. Resgatando sua auto-estima. Tendo-se em mente que o povo local é ingrediente turístico da mais alta qualidade. As pesquisas da Embratur já atestaram que as pessoas são o objeto mais valorizado pelos estrangeiros.

Existem alguns jovens destinos no nordeste, muito em moda atualmente, nos quais a promiscuidade vivida por operários que constroem esses resorts já está produzindo esses efeitos colaterais. Gravidez em crianças, recém-nascidos abandonados, assaltos em trilhas, aumento brutal no consumo do crack. Dá para imaginar para onde tudo isso irá conduzir?

Dá sim. Esses destinos caminham para sua auto-implosão como ilhas de tranqüilidade e oásis para a recuperação das energias dos turistas. Os gastos dos empreendedores com esses estudos e com as soluções preventivas certamente serão pagos pelos clientes e pela extensão do ciclo de vida do empreendimento, que está absolutamente amarrado à manutenção da saúde social do destino. É meramente uma questão de contas.

Nada melhor do que um destino saudável e feliz e nada pior do que um destino enfermo. Não é mais viável para um empreendedor olhar só para seu hotel. Pois o cliente, o turista, olha para o destino como um todo. O Brasil, como país jovem no turismo, tem a chance de buscar um turismo saudável, rico, multilateralmente enriquecedor. O mundo olha cada vez mais para estes valores. É a chance do país projetar uma liderança mundial, algo tão desejado por nossas lideranças.

No momento em que ganhamos o prêmio ECO da Amcham por nosso envolvimento contra a prostituição infantil sentimos que podemos e devemos fazer mais. O reconhecimento faz aumentar a nossa responsabilidade. E o nosso norte já está apontado.

Queremos juntos mudar a realidade do turismo em nosso país. Fazer dele realmente um instrumento de geração de renda para todos os envolvidos, de respeito à nossa gente e às nossas crianças, para as comunidades, de maneira que estas sejam integradas de fato e possam contribuir de verdade para a saúde do destino, impedindo a violência. Lógico, isso só ocorrera se elas se sentirem partícipes, incluídas, co-autoras de seus destinos e de sua história. Gerando um senso de pertencer.

Esse é o turismo que vislumbramos, para o país que queremos.

(*) Edgar Werblowsky é diretor da Freeway e diretor do TOI – a Comissão de Operadores de Turismo Sustentável ligada à ONU. Recebeu o prêmio ECO da AMCHAM pela Campanha contra a Exploração Sexual de Crianças no Turismo.(http://www.freeway.tur.br e http://www.toinitiative.org)
(Envolverde/Freeway Brasil)

http://envolverde.ig.com.br/materia.php?cod=29381&edt=

 


 

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